Data Trends
Livro raríssimo Mário Filho conta a história de Pelé, mas com diálogos fictícios
Reprodução
Cultura

Livro raríssimo Mário Filho conta a história de Pelé, mas com diálogos fictícios

Por Vitória Virgínia

O jornalista Mário Filho, que dá nome ao Maracanã, lançou, em 1963, um livro que hoje é disputado por colecionadores. “Viagem em torno de Pelé” conta a história do Rei e o autor cria conversas fictícias com o jogador. A “biografia romanceada” destrincha a infância de Edson Arantes do Nascimento, o sucesso no Santos e as Copas de 1958 e 1962. Na “orelha”, a explicação: “Esta é a biografia do primeiro ‘cidadão do mundo’ que o Brasil já produziu. Pelé é o mundo a ser visitado. A ser visto e sentido. Tanto o jogador como o homem — e antes do homem o menino que ele ainda é. Pelé conserva os olhos maravilhados de criança a descobrir o mundo, descobrindo o futebol. Daí a pureza que o ilumina no instante de uma jogada. Antecipa com clareza todas as hipóteses e escolhe a que lhe parece melhor — que às vezes é a de realizar o impossível. E assim se tornou o maior, no reinado mundial do futebol. A coroa de Rei não o perturbou. (…).”

Reproduzo aqui na coluna, a descrição de Mário Filho sobre a volta de Pelé ao Brasil, depois da conquista da Copa de 1958, na Suécia. Nunca é demais lembrar que ele foi campeão, na Suécia, com apenas dezessete anos: “(…) Lembrava-se da volta. Sempre sonhara em voltar assim, com banda de música. A banda de música tocara na chegada de outros. Havia, porém, uma diferença. Os músicos eram de Bauru, tinham visto Pelé dar os primeiros chutes. E tocaram para o garoto que regressava coberto de glória. Bauru queria mostrar a Pelé o quanto o queria. Por isso a cidade toda foi recebê-lo, com o prefeito à frente. Mas Pelé era só olhos para Dondinho [pai], para dona Celeste [mãe], para vovó Ambrosina, para o tio Jorge, para Zoca e Maria Lúcia. Olhava mais para dona Celeste. Tinha vontade de dizer-lhe:

— Viu, mamãe? Não para se gabar. A mãe querendo que o destino dele fosse outro. Não podia imaginá-lo feito Dondinho, de um lado para o outro, à procura de uma coisa que nunca veio. Dona Celeste sentia-se frágil diante do filho. Aconchegava-se a ele, como se buscasse proteção. Quem diria? O Dico [apelido de Pelé na infância] era um herói nacional. E lá estava o carro para ele. Todo o mundo em Bauru tinha assinado a subscrição, ricos e pobres. O carro estava coberto. Não era grande, mas era um carro. Dondinho disse:

— É seu, Dico. Pelé recusou as chaves. O carro seria de Dondinho. Imaginava o pai guiando o carro, gente apontando para êle:

— É o pai de Pelé. Não, não, ele é que era o filho de Dondinho. Por isso repetia que não era nada em comparação com o que fôra Dondinho. (…).”

Pelé ganhou um carro, mas ainda não tinha carteira de habilitação, pois só completaria dezoito anos em 23 de outubro de 1958. O pai, Dondinho, ex-jogador de futebol, ficou responsável pelo veículo, uma Romi-Isetta.

Se você se interessou pelo livro, com uma dose de sorte você encontra um exemplar de “Viagem em torno de Pelé” na internet. Com informações da Jovem Pan.