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As ‘canetinhas emagrecedoras’ entraram na oncologia
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Saúde

As ‘canetinhas emagrecedoras’ entraram na oncologia

Por Vitória Virgínia

Estudos recentes associam o uso de agonistas GLP-1 (as chamadas “canetas emagrecedoras”) a menor recorrência e maior sobrevida em alguns pacientes com câncer, mas os dados ainda são observacionais e não permitem afirmar uma relação de causa e efeito.

Os agonistas GLP-1, desenvolvidos para o tratamento do diabetes e atualmente também utilizados para obesidade, estão chamando a atenção da oncologia. Estudos recentes revelaram que esses medicamentos poderiam estar associados a menor ocorrência de alguns cânceres ou a melhores desfechos em pacientes oncológicos.

Por que a obesidade interessa à oncologia?

O tecido adiposo é biologicamente ativo, especialmente a gordura visceral, capaz de causar maior atividade do IGF-1 e produção de estrogênios, alteração de adipocinas e inflamação crônica de baixo grau.

Esses mecanismos favorecem proliferação celular, reduzem apoptose, modificam a resposta imunológica e criam um ambiente favorável ao desenvolvimento e progressão de tumores. Isto explica por que o excesso de gordura corporal está associado ao câncer de endométrio, mama, cólon, reto, fígado, rim, pâncreas, esôfago e outros.

Resultados apresentados no Congresso da American Society of Clinical Oncology 2026 (ASCO)

Uma análise retrospectiva de pacientes com câncer colorretal comparou indivíduos que utilizaram agonistas GLP-1 após o diagnóstico do tumor com pacientes que não utilizaram. A estimativa de sobrevida livre de recorrência do câncer em cinco anos foi de 89% nos usuários de GLP-1, contra 72,8% em não usuários.

Outro estudo avaliou pacientes com diferentes tipos de cânceres tratados com imunoterapia por inibidores de checkpoint. O uso de agonistas GLP-1 esteve associado à melhor sobrevida no acompanhamento de três e cinco anos.

Associação não significa causalidade

Os trabalhos apresentados até agora são observacionais e retrospectivos, ou seja, pesquisadores analisaram bancos de dados de pacientes que receberam ou não determinada medicação e procuraram verificar o que aconteceu posteriormente.

Nas análises destes estudos, técnicas estatísticas tornam os grupos semelhantes, mas não conseguem eliminar completamente suas diferenças e/ou fatores de confusão. Assim, um paciente que utilizou regularmente medicamentos poderá diferir de outro que não os utilizou em variáveis alheias como acesso ao sistema de saúde, acompanhamento médico, comportamento, composição corporal, controle metabólico, comorbidades, uso de outros medicamentos ou outras características capazes de interferir no prognóstico.

Portanto, não podemos afirmar, até o momento, que as “canetinhas” são medicamentos diretamente responsáveis pelo benefício oncológico percebido.

Um paciente com câncer pode utilizar agonistas do receptor GLP-1?

Na prática clínica, quando há indicação formal para o uso de agonistas GLP-1 em um paciente com câncer, é fundamental definir o melhor momento para iniciar o uso. Se o paciente apresenta inapetência, náuseas, vômitos, diarreia, saciedade precoce ou outros efeitos gastrointestinais decorrentes do câncer ou do seu tratamento, a introdução do agonista GLP-1 pode não ser adequada, pois o medicamento poderá intensificar a baixa ingestão alimentar e favorecer perda adicional de massa muscular, aumentando o risco de desnutrição, sarcopenia e fragilidade.

No paciente oncológico, perder peso não é suficiente

Câncer, quimioterapia, inflamação sistêmica, redução do apetite e atividade física são elementos que podem causar redução de peso por perda de massa muscular, fato indesejado no paciente oncológico. Não basta simplesmente “usar a canetinha” e “perder peso”. O tratamento assertivo deve estar associado a uma estratégia nutricional individualizada, atividade física e controle de sintomas.

O que podemos afirmar hoje?

Dados atuais sugerem associação entre o uso de agonistas GLP-1 e melhor sobrevida ou menor recorrência do câncer em alguns grupos de pacientes. Os resultados justificam novos estudos e conclusões promissoras são esperadas por pacientes e pela comunidade científica.

Até o momento, o maior avanço é reconhecer que obesidade, composição corporal, metabolismo, nutrição e massa muscular não são questões paralelas ao tratamento do câncer. Estes aspectos fazem parte do cuidado integral do paciente oncológico. Pacientes oncológicos selecionados e tratados com agonistas GLP-1 em momento clínico correto podem apresentar melhora metabólica, funcional e da qualidade de vida.

Dra. Fernanda Brandão Uliana Pulzi – CRM-SP 113.914 | RQE 27556 / 91555

Médica Endocrinologista e Nutrologista

Dr. Sérgio Antônio Pulzi Júnior – CRM-SP 113.060 | RQE 27555 / 39468

Médico Intensivista e Nutrologista 

Com informações da Jovem Pan.