Ivan Moraes leva bets, clima, serviços públicos e direitos das mulheres aos principais confrontos do debate da Globo
Por Vitória Virgínia
Em quatro blocos, candidato confrontou Raquel Lyra e João Campos sobre recursos para enfrentar a crise climática, incentivos fiscais às bets, defesa da Compesa pública, apoio a Lula e garantia do aborto legal para meninas vítimas de estupro
O candidato ao Governo de Pernambuco pela Coligação Frente Pernambuco de Luta (Federação PSOL/REDE e PCB), Ivan Moraes (PSOL), aproveitou os quatro blocos do debate da TV Globo para apresentar propostas, confrontar os adversários sobre temas que atravessam sua campanha e deixar clara a possibilidade da sua votação forçar a eleição de Pernambuco para um segundo turno.
Entre os destaques estão a cobrança de R$ 300 milhões do programa Sertão Vivo, que Pernambuco deixou de acessar por falta de empenho da gestão Raquel Lyra; a crítica à redução dos impostos concedidos por João Campos às bets; a defesa de serviços públicos essenciais, como abastecimento de água encanada, por exemplo; e o questionamento sobre medidas para garantir o aborto legal e seguro a mulheres e meninas vítimas de estupro.
Garantia de acesso ao aborto legal em Pernambuco
Ivan confrontou João Campos sobre o que faria, se fosse eleito, para garantir que meninas vítimas de estupro tenham acesso ao aborto legal e seguro, uma vez que menos de 2% das vítimas desse crime conhecem ou têm acesso ao seu direito de abortar amparadas pela lei.
João deu uma resposta evasiva, tratando de outras políticas para mulheres como uma forma de fugir do tema do aborto, além de ter tentado usar o tempo de Ivan para atacar a candidata Raquel Lyra indiretamente.
Ivan, diante da fuga do adversário, insistiu que a pergunta era especificamente sobre aborto legal. "Candidato, você me desculpe, a pergunta é minha e eu não falei de delegacia, eu falei de saúde reprodutiva. Eu sou aliado do movimento feminista e defendo o direito das mulheres a tudo sobre o seu corpo. Agora, a gente tá falando do abroto legal e seguro para meninas, crianças que são estupradas e têm o direito de ter essa gravidez interrompida."
Ivan foi além, explicando quem na posição de aliado dos movimentos feministas defende que as mulheres tenham direito à educação para decidir, a contraceptivos para não engravidar, e ao aborto legal e seguro para não morrer. Em seguida, o candidato foi além e fez o que João Campos não foi capaz: trouxe propostas concretas para assegurar os direitos das meninas que engravidam após serem vítimas de estupro.
"No meu governo, a gente vai interiorizar essa estratégia de investir em informação para que as famílias reconheçam esse direito de crianças que são estupradas e eventualmente engravidam. Aí, naturalmente, a gente vai fazer com que esse número suba. Não é possível que nos últimos dois anos, como diz o SOS Corpo, mais de duas mil crianças estupradas engravidaram, e menos de 2% tiveram acesso ao aborto legal e seguro."
R$ 300 milhões para enfrentar a crise climática
Logo no primeiro bloco, Ivan questionou Raquel Lyra sobre a preservação da Caatinga e cobrou a recuperação dos R$ 300 milhões previstos no programa Sertão Vivo, que seriam destinados a 55 municípios e 75 mil famílias do semiárido. Ao responder sobre as medidas que pretende adotar para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, Ivan também defendeu uma política baseada na prevenção e proteção das populações mais vulneráveis.
“A primeira coisa que eu vou fazer é tentar reaver os R$ 300 milhões que a senhora não foi buscar. Faz dois anos que a senhora trouxe aqui o Aloizio Mercadante, então presidente do BNDES, pra anunciar o programa Sertão Vivo, que traria R$ 300 milhões para 55 municípios, trazendo acolhimento para 75 mil famílias pra lidar com o semiárido, e a gente perdeu esse recurso”, disse Ivan.
João Campos trabalhou para atrair bets para o Recife
Na sequência, ao discutir reforma tributária, Ivan levou para o debate a política de incentivos fiscais de Pernambuco e a redução de impostos para empresas de apostas, lembrando que João Campos havia enviado à Câmara do Recife um projeto com o objetivo de atrair empresas do setor.
“Em termos de isenção fiscal, João, é preciso também que você me diga porque que baixou o imposto das bets, dando de presente pras bets mais de R$ 120 milhões! Agora o presidente Lula já acabou com essa farra, e aí eu não sei como é que você vai fazer com os seus parceiros que bancaram os Carnavais e o São João do Recife quando você era prefeito.”
Lula, Compesa e um projeto diferente para o Agreste
Durante o debate, Ivan confrontou João sobre sua oposição ao PT em 2020 - ano no qual atacou repetidamente tanto o partido quanto o próprio Lula - e destacou a mudança de posição diante da eleição deste ano.
Ao responder à tentativa de deslocar o debate para posições históricas do PSOL, Ivan diferenciou os contextos eleitorais e reafirmou que, em 2026, o campo democrático precisa estar unido em torno da candidatura de Lula. “Em 2020 você foi candidato a prefeito com alianças com as mesmas pessoas que hoje acusa de estarem no palanque da nossa adversária. O que lhe fez mudar de ideia?”
Na pergunta sobre o Agreste, Ivan debateu com a atual governadora, Raquel Lyra. Ele apresentou uma proposta para utilizar a cannabis como matéria-prima para atividades econômicas no estado, ao passo em que a gestora, em sua resposta, se esquivou de responder, numa aparente tentativa de não desagradar os grupos mais reacionários de seu palanque.
Ivan também reafirmou sua defesa da Compesa pública ao ser questionado sobre a universalização do abastecimento de água sem privatização. O candidato criticou experiências de concessão que já aconteceram em outras partes do país e do mundo, reafirmando que o estado a Compesa sempre foi superavitária e que Pernambuco precisa de uma empresa pública saudável para executar um projeto de universalização do acesso à água em Pernambuco com metas de curto, médio e longo prazo.
Uma candidatura diferente das iguais
Nas considerações finais, Ivan apresentou o conjunto dos temas discutidos durante o debate como parte de uma candidatura que, segundo ele, se diferencia das opções de centro. O candidato destacou a possibilidade de sua votação impedir que a eleição seja definida no primeiro turno e afirmou que uma eventual segunda etapa obrigaria os candidatos de centro a incorporar ao debate as pautas defendidas pela esquerda.
“Existe uma candidatura diferente das iguais. Eu tenho ao meu lado dois herdeiros da velha política, que medem cada palavra que dizem, que estão muito bem treinados. Estão muito longe de ser o pior que existe na política hoje, mas também estão muito longe de ser aquilo que a gente deseja que a política seja.”
“Você está vendo as pesquisas: eles dois estão na frente, muito à frente de mim, muito apertados. Então, você imagina o que seria um candidato de esquerda levar essa eleição para o segundo turno. Pode acontecer comigo! Se a gente levar a eleição para o segundo turno, os dois, que são políticos de centro, vão ser obrigados a olhar para as pautas que nos são caras, vão ser obrigados a olhar para o meu programa de governo, que você já entende que é o único programa de governo que representa os interesses do campo progressista de verdade, que não é progressista por conveniência, mas que sempre foi progressista.”