Choro a morte de Bruno porque constato, envergonhado, que não teria sua coragem
Por Ricardo Antunes – Acordei com a notícia de que Bruno Covas se foi. Soubemos um pouco antes que não havia mais chances de vida, já na última sexta, quando falei com uma pessoa muito próxima a equipe do hospital.
Minutos depois, a equipe médica confirmou para todo Brasil, através de nota oficial, que sua partida era “irreversível”.
Não sei o motivo, mas depois de atualizar o blog com a ajuda do Arthur, me peguei com os olhos marejados.
Tomei café, com o som da TV ligada, e chorei várias vezes. Lembrei de duas tias que perdi com a mesma doença, lembrei dos nossos mortos, e de por qual motivo eu não estou entre eles. Tudo passa muito rápido na mente quando você está tentando racionalizar as coisas que o Pai maior nos impõe.
Há mortes que choramos por elas e por todas as outras daqueles que já se foram e nos deixaram vazios, me disse uma amiga. É verdade.
Deve ser isso. Bruno poderia ter ido viver os pouco menos de dois anos que teria de vida, viajando pelo mundo ao lado do seu único filho, Tomás. Poderia fazer o que na sua vida ainda jovem, não tinha feito. Se jogar no hedonismo, beber muito vinho, escrever um livro, ficar mais tempo com seu filho.
Optou pelo não egoísmo. Preferiu disputar a prefeitura, enfrentar o segundo turno, ganhar a eleição, cuidar de sua cidade e de sua população.
Era a vocação herdada do avô, Mario. Uma vez, já com câncer, ele explodiu aos gritos e foi para cima de um grupo que estava lhe xingando. Um radical lhe tacou um pedaço de pau em sua cabeça. As imagens ficaram marcadas como símbolo do ódio e da covardia.
Não sei se eu faria o que Bruno fez.
Muito provavelmente faria exatamente o oposto. Iria dedicar meu tempo ao meu filho João Pedro, aos queridos amigos, aos amores do passado e do presente.
Iria viajar para lugares nunca conhecidos, navegar por mares bonitos e perigosos. Sempre gostei de aventuras, os mistérios sempre me encantaram. Iria terminar os dois livros que comecei a escrever.
Bruno fez a opção mais difícil. Não ganhou um real a mais com isso. Pelo contrário. Tomou posições que foram contrárias até ao atual governador, João Doria.
Quando estava de licença médica, foi a um jogo com seu filho, no Maracanã. Sabia que era o último e que não podia negar o pedido do jovem garoto torcedor do Santos.
Bruno Covas e o filho, Tomás, fã do Santos F.C
“Linchado” pela barbárie da web, e pelos radicais de plantão, foi maior que tudo isso. Nenhuma palavra de rancor, de mágoa, de censura.
Íntegro, honesto, tímido, mas firme. Fez questão de viver seus últimos meses de vida trabalhando. Poderia fazer a opção pelo conforto. Fez a opção, no entanto, pela luta.
Bruno viu a “cara da morte” chegando toda noite antes de dormir.
Eu cobriria meu rosto com o lençol. Sempre tive medo de fantasmas, sempre tive medo do escuro.
Com apenas 41 anos, completados em abril, Bruno não se escondeu debaixo da cama e nem fugiu para o quarto da mãe.
Pediu licença, e foi à luta.
Deixando um vazio que eu nunca imaginei que iria sentir.
Que seu exemplo inspire os nosso filhos, e que sua partida nos faça ter mais coragem e menos covardia.
Por que são tristes os domingos?